terça-feira, 19 de março de 2013

A senhora e a borboleta








Em uma noite solitária, decidi caminhar peça cidade para pensar um pouco sobre a vida, que aliás, andava um pouco bagunçada. Parei por uma ponte onde poucas pessoas se aventuraram a passar. Fiquei sozinho, apenas a contemplar a beleza do lago sob o efeito daquela noite clareada pelo brilho resplandescente da lua cheia.
Confesso que nunca tive muito amor pela vida. Sou filho de pais que sequer se gostaram. Mas isso fica para outra história. Perdi minha mulher e filhos há algumas semanas em um acidente de carro, no qual fui o único a sobreviver. Naquele momento, havia acabado de perder o emprego.
- Antes, um homem casado e de certa estabilidade financeira. Hoje, apenas um bêbado em uma ponte- falei em voz baixa.
Algumas horas se passaram, e a cada segundo, milhares de pensamentos enchiam minha cabeça. Uma arma carregada descansava sobre um dos bolsos da minha jaqueta. Estava determinado a acabar com tudo de uma vez por todas.
Aquela ponte era o lugar perfeito para cometer um suicídio. Ninguém passava por ali, e com sorte, cairia no lago. Minha única testemunha seria uma borboleta preta que pousara em um dos galhos próximos à ponte. Fiquei a observá-la por minutos, pensando se iria ou não cometer ato tão sutil como o suicídio. Até que...
- Está uma bela noite, não é?- perguntou uma dócil senhora, se aproximando.
Sem sequer olhar para ela, respondi que estava.
-Ora, meu jovem, vejo que aprecia esse presente da natureza, não é?- indagou a senhora, apontando para a borboleta, e continuando- muitas pessoas possuem medo desse tipo de animal. Acredita-se que a borboleta negra anuncia a chegada da morte.
Enquanto observava a borboleta, mal podia deixar de pensar em minha família. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, fazendo com que minha vontade pelo suicídio aumentasse. Queria ver minha mulher e meus filhos mais uma vez. A senhora se aproximou e me deu um abraço, dizendo:
-Ela está feliz lá encima. Assim como seus filhos também estão. Jhon- ela me chamou- você foi salvo daquele acidente porque tem um objetivo no mundo. Não pense em sair daqui sem cumpri-lo. Pense em como sua família ficaria caso você o fizesse.
A senhora enfiou sua mão direita em meu bolso, puxando a arma e jogando-a contra o lago.
-Tornaremos a nos ver, querido. Até lá, trate de aproveitar bastante sua vida.- disse a velha, partindo pelo mesmo lado da ponte por onde viera. Quando ela havia desaparecido, uma voz suave ecoou em minha mente- Ainda não é a sua hora.

-W.-

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